1
Jörn caminhava pela viela escura a passos largos,
pois já era madrugada e aquela parte do bairro não o agradava nem um pouco. Era
engraçado que se preocupasse com a segurança daquele percurso, tendo em vista o
rumo que tomava. Havia acordado fazia algumas horas, em uma cama de hospital,
sua colega de quarto coberta dos pés à cabeça por um lençol, os sensores
eletrônicos e monitores cardíacos ligados a ela já não transmitindo qualquer
sinal. O sonho de três dias do qual despertara era repassado inteiramente em
seus pensamentos, intercalado com a lembrança de todos os momentos bons e ruins
que havia passado com ela durante todo o tempo que tiveram um com o outro. A
despeito de todos os momentos felizes, sua vida juntos havia sido definida por
uma série de abusos, violência, depressão e erros grotescos, e talvez tivesse
sido isso que motivou a decisão dela de, durante a discussão dos dois, três
dias antes, assumir o volante e guiar o carro reto para a pista contrária,
tornando-o um alvo perfeito para o entregador apressado que se preocupava com
os 120 quilômetros que precisava percorrer com seu caminhão de mudanças ainda
naquela manhã. É provável que essa não fosse a sua intenção, mas a maneira como
o carro se posicionara naquela fração de tempo foi o que tornou o acidente uma
fatalidade apenas para ela, e foi seu corpo esmigalhado que amorteceu o
impacto que toda a massa de ferro comprimido teria causado a ele, tornando-o
provavelmente um vegetal sangrento e desfigurado, da mesma maneira que ela se
encontrava durante todo o período em que ele estivera inconsciente. E então
tudo voltava ao sonho, que terminava com as últimas manifestações histéricas do
monitor cardíaco ligado à sua amada. E o sonho o havia incumbido de uma tarefa.
Iria ao inferno para trazê-la de volta. Iria literalmente ao inferno.
2
Já havia percorrido alguns
quilômetros, seguindo em uma direção puramente instintiva, quando avistou o que
procurava. Alguns metros ao longe, no meio do asfalto daquela rua pouco
movimentada, sob a luz oscilante de um poste de iluminação, jazia um corpo
inerte. Se aproximou com cautela, e agora mais próximo, podia constatar que se
tratava realmente de um cadáver, estendido no chão, pontuado de perfurações a
bala, suas vestes completamente enegrecidas pelo sangue. Não sabia de quem se
tratava, nem as circunstâncias de sua execução, mas sabia que, seja quem fosse, estava indo para o mesmo lugar que ele
próprio pretendia adentrar. Restava então esperar. Procurou por seus cigarros,
e não os encontrando, pois devia tê-los esquecido quando juntou seus pertences
apressadamente para fugir do hospital, revistou o morto, e por sorte, encontrou
uma carteira pela metade, da qual conseguiu salvar uns dois ou três cigarros
que não estavam empapados de sangue, e um isqueiro, que ajudariam a tornar a
espera um pouco mais confortável.
A madrugada quase se
aproximava do final quando o cadáver no meio da rua abandonou seu descanso estático
e se levantou desajeitadamente, apoiando-se nas mãos, aparentemente ainda
debilitado pelas dezenas de projéteis fundidos ao seu corpo. Jörn levantou do
cordão da calçada, onde esperava, e se aproximou do homem, que agora o fitava com
uma expressão vazia.
-Vai a algum lugar? – Perguntou ao
cadáver.
-Sim...
-Sabe o caminho?
-Não tenho certeza, mas vou por
ali.
Apontou em sua direção, e Jörn se virou para
observar o caminho que o homem indicava. Nada de diferente, apenas uma pequena
ruela quase despercebida entre dois velhos apartamentos. Enquanto observava, o
homem já o havia ultrapassado e seguia pacientemente pelo caminho que havia
indicado. Jörn o seguiu. Andou por uma série de becos escuros entre prédios antigos, sem que se deparasse com qualquer alma viva. Chegou à
conclusão de que em qualquer outra noite, em qualquer outra circunstância, nenhum
daqueles caminhos existiria, e estavam lá apenas por aquele instante, apenas
para que ele e seu bizarro guia concluíssem sua viagem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário